Impedir o Filicídio e Respeitar as Crianças

Como se Reproduz
Carmicamente o Sofrimento da Humanidade

Carlos Cardoso Aveline


Toda criança tem direito a uma vida física e emocional  
segura e estável. À direita, a capa do livro de Rascovsky sobre Filicídio

 

Uma grande bênção espera os povos da civilização ocidental. A bênção descerá sobre nós quando afastarmos o fantasma milenar do filicídio – isto é, o maltrato, o abuso, o desprezo, o abandono, o assassinato e o massacre dos nossos filhos e netos.

O filicídio é um fenômeno de muitas dimensões. Ocorre consciente e inconscientemente. É individual e coletivo. De algum modo, todos somos vítimas dele: mas ninguém é inteiramente inocente.

As crianças enfrentam dificuldades no ensino público, convivem com programas indecentes de televisão, e sofrem com o medo do abandono, a desestruturação da família, a pobreza ou miséria dos seus pais e a tentação das drogas e do crime. Em muitos casos, passam fome, participam de atos de violência ou são espancadas. E mesmo assim sorriem, brincam, e trazem alegria aos adultos que estejam perto delas.

Na primeira metade do século 21, centenas de milhares de crianças estão lutando em conflitos militares ao redor do mundo, estão envolvidas de vários modos em atividades terroristas ou são vítimas de massacres.   

Na chamada “Palestina” (nome de origem judaica), assim como em muitas outras partes do mundo, crianças e jovens árabes são treinados e ensinados a pensar que é heroico matar e morrer em atos de terror obviamente covarde, contra inocentes indefesos, para maior glória de Alá e do Islamismo.

Pessoas de meia – idade mandam seus filhos para a morte e passam a receber pensões das entidades “sem fins lucrativos” controladas por países exportadores de petróleo. Ao recrutar e promover a lavagem cerebral dos jovens muçulmanos, os terroristas mais velhos lhes prometem que, depois de morrerem em atos de uma violência absolutamente sem sentido, terão uma vida eterna no paraíso, rodeados de garotas encantadoras. Por algum motivo, os líderes do terrorismo antissemita não têm pressa de conhecer o Paraíso e fazem o possível para escapar das forças armadas de Israel, cuja meta é matá-los em ações seletivas, poupando tanto quanto possível a população civil.

Nos países ocidentais, temos outras maneiras de destruir as crianças. Aborto em casos desnecessários, menores abandonados que passam a ser moradores de rua, prostituição infantil, abusos sexuais, violência doméstica, abuso verbal, pouca atenção e proteção emocionais são alguns modos práticos de destruir as crianças. A eles se soma a exposição intensa de milhões de crianças a programas de televisão e videogames que promovem e exaltam a violência, a criminalidade e o desrespeito pela vida.

Se as crianças são o símbolo do futuro, matá-las ou maltratá-las, ainda que indiretamente, é destruir o amanhã. Vencer essa forma de autodestruição coletiva não é fácil: nem sequer sabemos exatamente por que ela ocorre.

O psicanalista argentino Arnaldo Rascovsky (1907-1995) investigou as causas da tendência de destruir o que há de mais precioso na família humana. Sendo judeu, Rascovsky tinha é claro um conhecimento de primeira mão sobre o que é injustiça contra os mais fracos. Ele descobriu que, desde a sua origem mais remota, a nossa civilização está marcada por um conflito dramático entre pais e filhos. Rascovsky usa o termo filicídio para designar um fenômeno complexo, frequentemente negado e ocultado: a violência física e emocional dos mais velhos contra as crianças.

Ele explica:

“Os atos de agressão e destruição total ou parcial promovidos pelos pais contra seus próprios filhos são universais e podem ser encontrados em todos os grupos sociais, tanto primitivos quanto modernos”. Pensador de importância mundial, Rascovsky acrescenta: “A punição mental ou corporal, o desprezo ou abandono, a mutilação ou assassinato dos filhos, crianças ou jovens – dos quais a guerra é o maior exemplo – são praticados em todas as regiões do mundo.”[1]

Para entender esse fato, é preciso estudar as emoções mais primitivas de uma criança. A psicanálise afirma que a primeira fase da vida de um ser humano é oral-canibalística. Para sobreviver, a criança “morde” um pedaço do corpo da mãe – o seio – e engole parte do corpo materno – o leite. Mais adiante, a atividade oral-canibalística é estendida para outros alimentos. O mundo natural de onde vêm esses alimentos é sentido como uma extensão do corpo da mãe. A expressão “mãe natureza” não surgiu por acaso: o doce corpo materno é, para o bebê, a primeira instância do meio ambiente natural.

“Com a ingestão do peito”, escreve Rascovsky, “a fase oral-canibalística oferece a alternativa suprema entre comer (destruir) e ser comido (ser destruído). Na verdade, a urgência do impulso de desintegrar [aquilo que é visto como alimento] é irreprimível, e constitui a expressão essencial do organismo: a luta pela vida”. [2] Assim, para os animais mamíferos, morder é um meio de defesa e ataque. Na vida humana adulta, roer as unhas ou comer em excesso são hábitos diretamente ligados à fase oral-canibalística.

Essa etapa do desenvolvimento humano aparece simbolicamente no Novo Testamento. Na última ceia, Jesus distribui pedaços de pão aos discípulos e afirma:

“Peguem e comam; esse é o meu corpo.”

Depois, toma um cálice de vinho e passa a eles, dizendo:

“Bebam dele todos vocês, pois esse é o meu sangue.” (Mateus 26:26-28)

Essa imagem canibalística foi transformada em ritual e é reproduzida na cerimônia da Eucaristia (igreja católica) e na cerimônia anual da Santa Ceia (igrejas protestantes e evangélicas). Em tais rituais, o público é convidado a comer um pedaço do corpo de Cristo e a beber seu sangue.

A atitude primitiva de devorar e destruir para sobreviver é algo marcante. Durante a vida adulta, a tendência é atenuada. Em condições de grande estresse, porém, ocorre uma forte regressão emocional e a antiga carga destrutiva da primeira infância emerge na vida adulta, voltando-se contra os próprios filhos ou as crianças em geral. Sempre que há uma situação social de profunda decadência, essa regressão ocorre coletivamente. Então, crianças e jovens são destruídos em grande escala – tanto física quanto emocionalmente.

A infeliz agressão aos jovens e aos mais fracos vem de longe. Os mitos que formam a base da cultura ocidental giram em torno do conflito entre duas situações: o filicídio (quando os pais matam ou maltratam os filhos) e o parricídio (quando os filhos matam ou maltratam os pais). O mito mais famoso, o de Édipo, foi escolhido por Sigmund Freud para ser a base da moderna psicanálise. E a lenda de Édipo não é apenas a história de um filho que, sem saber, mata seu pai. Antes disso, o pai de Édipo já havia decidido conscientemente matar seu filho recém-nascido.

O mito conta que um oráculo havia profetizado ao rei Laio: um dia, ele seria assassinado por seu próprio filho. Ao nascer Édipo, Laio dá ordens para que o bebê seja abandonado no alto do Monte Citéron, para que lá morra de fome e frio. Mas o bebê é encontrado por um pastor, que o salva. Édipo é educado em terras estrangeiras e, quando adulto, decide viajar. Durante um incidente violento na encruzilhada de uma estrada, o jovem mata seu pai sem saber de quem se trata. Mais tarde, casa com sua mãe também sem saber quem ela é na verdade. Quando, afinal, descobre sua verdadeira história, ele fura os próprios olhos e abandona, cego e desesperado, a cidade que antes governara feliz.

Freud construiu a psicanálise apoiado no complexo de Édipo – o impulso pelo qual o filho, inconscientemente, compete com o pai pela posse da mãe. Rascovsky aceita a importância do complexo de Édipo. Mas, ao contrário de Freud, ele olha a situação também do ponto de vista da criança. Assim, consegue perceber o vasto processo do filicídio coletivo e individual produzido pelos sentimentos de medo e raiva que tomam conta dos pais e mães imaturos ou incapazes de amar em profundidade. Ele explica: “o primeiro ato de rancor, nesse conflito, não parte da criança e sim de um adulto poderoso contra um recém-nascido indefeso. O possível ódio do filho contra o pai é posterior e constitui apenas uma defesa contra o processo do filicídio.” [3]

A ideia de matar os filhos está presente em toda a cultura ocidental.

O infanticídio ameaça os grandes heróis da antiguidade. Moisés, quando recém-nascido, escapa por pouco do assassinato, graças ao fato de que é abandonado navegando rio abaixo em uma cesta de papiro calafetada com betume. Na lenda dos Evangelhos cristãos, o menino Jesus escapa por um triz do massacre ordenado por Herodes contra as crianças recém-nascidas. (Mateus, 2: 16)

Em vários trechos da Torá judaica ou Velho Testamento cristão, Deus exige o sacrifício e a morte dos filhos primogênitos. Em Gênesis, 22, o Senhor ordena a Abraão que vá até a terra de Moriá para ali queimar vivo o seu único filho Isaac. Só quando o menino já está amarrado à lenha pronta para queimar, é que o bom Deus manda uma contraordem, permite que ele solte a criança e explica que tudo não passava de um teste para saber se Abraão era capaz de obedecer em todas as circunstâncias. Do ponto de vista psicanalítico, porém, Deus é uma projeção que surge do próprio mundo interno de Abraão.

A circuncisão dos recém-nascidos surge como um ritual para substituir o antigo assassinato sacrificial dos filhos. É a “submissão genital” dos garotos à autoridade do pai, no dizer de Rascovsky: uma castração simbólica pela qual os pais exorcizam a possibilidade de que os filhos sejam seus futuros rivais.

Para a psicanálise, a circuncisão faz parte do processo mais amplo de proibição do incesto – que permite a sublimação do amor e o surgimento da sociedade organizada. [4] No Gênesis, o Senhor Deus torna obrigatória a circuncisão e condena ao exílio quem não for circuncidado, ao dizer: 

“O incircunciso, o macho em quem a carne do prepúcio não tiver sido cortada, será afastado da comunidade: ele violou Minha aliança.” (Gn, 17:14)

A vida de bebê não é fácil, pois. Às vezes, inclusive, ela termina antes de começar. O aborto – que hoje ocorre aos milhões, mesmo nos países onde é ilegal – é umas das formas mais escancaradas de filicídio. Mas a interrupção da gravidez não é a única forma de conflito entre as gerações. A atividade militar não pode ser subestimada:

“A guerra é um sistema para a continuação da matança sacrificial dos filhos”, afirma Rascovsky. “As guerras têm sido incluídas dentro da estrutura social desde o começo da cultura, com base em múltiplas motivações, conscientes e inconscientes. Sua presença constante no curso da história demonstra que tem uma função social estável. Entre os muitos fatores que atuam como causas da guerra, destaca-se a necessidade de perpetuar o sacrifício humano, especialmente o sacrifício dos filhos, com todo o seu significado latente, social e cultural, e primitivo.”

Outra maneira moderna e radical de destruir a infância é proporcionada pelos canais populares de televisão. Rascovsky constata que “nossos meninos e meninas crescem limitados e dirigidos para os seriados [… e filmes cujos conteúdos são…] criminosos e violentos”.

Depois do diagnóstico, Rascovsky aponta a solução. Ele segue o caminho científico. Ele sabe que o ser humano constrói o seu próprio destino. A bênção que é o amor saudável entre pais e filhos já existe hoje, em parte, mas pode e deve ser enormemente ampliada.

“A batalha contra o filicídio”, diz ele, “necessita do apoio constante da comunidade à defesa da criança e à promoção de uma relação mais positiva entre as gerações, através do aumento da relação inicial de amor, que é o amor sentido pelos pais. Desse modo se neutralizará o desenvolvimento hipertrofiado do ódio na sociedade contemporânea.”[5]

Rascovsky defende a criação de instituições sociais capazes de esclarecer pais, mães e educadores em geral em relação às situações que bloqueiam o desenvolvimento emocional das crianças. E considera prioritária a constante denúncia das atitudes de abandono, desprezo e abuso contra os menores.

Isso não basta, porém. Será conveniente resgatar uma visão mais profunda do amor entre o homem e a mulher. O afeto verdadeiro abre o caminho para a felicidade duradoura. É de um amor intenso, no casal, que surge com mais força o desejo maduro de ter filhos – e assim emerge a capacidade de amá-los como eles merecem.

O dever de proteger as crianças pertence a todos os cidadãos, e cabe lembrar estas palavras de Kahlil Gibran:

“Vocês podem tentar ser como [seus filhos], mas não procurem fazer que eles sejam como vocês. Porque a vida não vai para trás nem se apega ao dia de ontem.” [6]

Quanto às tradições religiosas, já é tempo de os três principais monoteísmos e outras religiões compreenderem um ponto dos mais básicos: embora seja correto “sacrificar os nossos filhos”, esta frase não pode ser olhada literalmente. Ela não significa que matar nossos filhos em guerras, ou atacá-los emocionalmente no lar, seja OK ou moralmente aceitável.

A frase é apenas um símbolo para a prática de desapego em relação a aquilo que nós mais amamos. Este foi o teste enfrentado por Abraão em Gênesis, 22. Porque nosso amor pelas crianças está entre as formas de afeto mais puras que podemos sentir.

O simbolismo de “matar os que mais amamos” está presente também nas tradições orientais, e o Dhammapada budista afirma:

“Um verdadeiro brâmane sai ileso ainda que tenha matado o pai, a mãe e dois reis da casta dos guerreiros, além de destruir um reino com todos os seus súditos.” [7]

Ao ler corretamente esta afirmação, compreendemos que o apego cego aos que amamos e a posições sociais deve ser “morto” por nós. As palavras do ensinamento simbolizam a obrigação de renunciar não-violentamente a todos os laços de natureza pessoal no que eles têm de subconsciente e não-examinado.

Isso não significa que devemos abrir mão de toda autoridade sobre as crianças. A incapacidade de colocar limites para os nossos pequenos e de educá-los adequadamente, com  o grau necessário de severidade, é uma forma disfarçada de descuido e de falta de um amor real por eles. Aquele que quer o bem de uma criança estabelece limites na vida dela e lhe dá estabilidade emocional.

Deve ser feito um esclarecimento em relação à ideia de “matar os nossos inimigos”, que encontramos nas escrituras de diferentes religiões. Este princípio não significa odiar ou atacar aqueles que pensam de modo diferente de nós, ou pertencem a uma nação que não é a nossa. Significa, isso sim, que devemos derrotar os nossos verdadeiros inimigos, que são, é claro, a nossa própria ignorância, a nossa preguiça, o nosso medo do desconhecido, e a autoilusão.

NOTAS:

[1] “FILICIDE, the Murder, Humiliation, Mutilation, Denigration, and Abandonment of Children by Parents”, de Arnaldo Rascovsky, Ed. Jason Aronson, Inc., Northvale, New Jersey and London, 1995, 279 pp. Introdução, p. XI. Em língua portuguesa, veja “O Assassinato dos Filhos (Filicídio)”, de Arnaldo Rascovsky, Editora Documentário, RJ, 1973, 135 pp.

[2] “Filicide”, obra citada, p. 05.

[3] “Filicide…”, ver a metade inferior da página 252.

[4] “Filicide”, obra citada, pp. 69-95.

[5] Sobre a guerra: “Filicidio, Violencia y Guerra”, de Arnaldo Rascovsky, Schapire Editor, Buenos Aires, 1975, 110 pp., ver p. 09. Sobre televisão: “Filicidio, Violencia y Guerra”, p. 64. Sobre a luta contra o filicídio: “Filicide”, pp. XVII e XVIII.

[6] “The Prophet” (“O Profeta”), Kahlil Gibran, Senate, Grã-Bretanha, 2004, 114 pp., ver p. 20.

[7] “O Dhammapada”, edição online de nossos websites associados. Veja o Capítulo 21, axiomas 5 e 6, com seus comentários.  

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Veja em nossos websites associados o artigo “Sobre o Aborto: o Feticídio é um Crime?”, de Helena P. Blavatsky.

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Sobre o mistério do despertar individual para a sabedoria do universo, leia a edição luso-brasileira de “Luz no Caminho”, de M. C.

Com tradução, prólogo e notas de Carlos Cardoso Aveline, a obra tem sete capítulos, 85 páginas, e foi publicada em 2014 por “The Aquarian Theosophist”.

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