Examinando Sete Perguntas

Uma Reflexão Sobre Autorresponsabilidade

Carlos Cardoso Aveline

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Paisagem dos Himalaias em quadro do pintor russo Nicholas Roerich

 

O estudante de filosofia esotérica dispõe de alguns meios e métodos pelos quais pode obter a sabedoria de modo gradual e seguro. Um dos Aforismos de Ioga de Patañjali afirma:

“A cognição correta resulta de percepção, dedução e testemunho.”[1]

O exercício a seguir consta de sete perguntas e inclui a prática da dedução, ou inferência. Ele pode e deve ser realizado regularmente.  Em diferentes momentos da vida do estudante, as respostas ou sentimentos em relação a estas questões serão diversas. Se ele anotar e registrar a data das suas reflexões, poderá perceber ao longo do tempo a evolução das suas reações pessoais diante dos temas levantados.

As cinco perguntas iniciais são:

1) No meu estágio atual de aprendizagem de teosofia, de que modo eu respondo à pergunta sobre se os Mestres de Sabedoria existem, de fato?  Posso e devo ser sincero comigo mesmo, porque o caminho da sabedoria começa com a renúncia à autoilusão.

2) Se os Mestres de Sabedoria existem,  eles observam a humanidade? O que é que eu, como indivíduo independente, penso e sinto a respeito?

3) Caso os Mestres observem a humanidade, será que eles acompanham com especial atenção o movimento teosófico moderno, que eles próprios fundaram cuidadosamente no século 19, através de discípulos como Helena Blavatsky e outros? 

4) Se os Mahatmas observam o movimento teosófico, será que eles têm mais afinidade com aquele nível externo de atividade teosófica falsificada, que gira em torno de coisas como poder pessoal,  rituais espúrios, ambição e vaidades? Ou será que eles preferem aquela parte do movimento teosófico que estuda atentamente e tenta vivenciar o ensinamento original transmitido por eles?

5) E quando os Mestres observam o movimento teosófico original, será que eles  observam com mais nitidez aquela parte do movimento que apenas memoriza e repete as obras originais e autênticas, tentando vivenciá-las? Ou eles dão mais atenção àqueles setores que, além de fazer isso, olham para a situação atual da humanidade e para o futuro da civilização à luz do ensinamento original, discutindo – de modo crítico e construtivo – o dever e o futuro do movimento?  

As perguntas acima merecem uma cuidadosa observação. É útil levar em conta que H. P. Blavatsky escreveu o seguinte no capítulo 14 da obra “A Chave da Teosofia”:

“Os Mestres olham para o futuro, não para o presente, e cada erro de hoje significa apenas mais sabedoria acumulada nos dias que virão.” [2]

Concluída esta etapa, cabe avaliar duas questões que dizem respeito ao próprio estudante. Elas convidam a um autoexame tão honesto quanto possível, porque toda aprendizagem implica um dever ético. O conhecimento que é mal usado, ou que não é usado, não é real conhecimento.

As perguntas finais são:

6) Considerando que a responsabilidade do movimento teosófico e dos Mestres de Sabedoria em relação ao futuro da humanidade é um fato comprovado, será  que eu tenho real consciência do que significa atuar, como indivíduo, dentro do “campo de observação” dos Mestres de Sabedoria? Como eu me sinto, pessoalmente, quando penso nessa possibilidade e nessa responsabilidade?

7) Cabe examinar, a seguir, se compreendo pelo menos algumas das implicações práticas de uma regra mencionada na literatura esotérica. O axioma afirma que “o candidato a discípulo não deve preocupar-se em ‘encontrar o Mestre’; mas deve, isso sim, tomar as medidas práticas para que, quando o Mestre observe sua aura, a encontre correta e preparada para trilhar o caminho impessoal do dever para com todos os seres.” 

O axioma está bem documentado. A obra “Luz no Caminho”, de M. C., afirma:

“É fácil dizer, ‘não serei ambicioso’. Não é tão fácil dizer, ‘quando o Mestre examinar o meu coração, ele o encontrará completamente limpo’.” [3]

Apontando na mesma direção, Helena Blavatsky aconselha no seu texto “Chelas e Chelas Leigos”[4]:

“Antes de desejar, faça por merecer”.

A vida segue a lei da simetria, e a simetria inclui frequentemente o paradoxo. Na experiência de encontro com fontes superiores de inspiração, o estudante vê com toda nitidez, compreende, e abandona, o que há de pior e mais desagradável em si, o seu “esquema de reprodução da dor”. Esta vivência pouco agradável é um efeito colateral do fato de que ele está passando por uma experiência essencial de encontro consigo mesmo.

No primeiro parágrafo do livro “Luz no Caminho”, o estudante lê as seguintes advertências:

“Antes que os olhos possam ver, eles devem ser incapazes de lágrimas. Antes que o ouvido possa ouvir, ele deve ter perdido sua sensibilidade. Antes que a voz possa falar na presença dos Mestres, ela deve haver perdido o poder de ferir. Antes que a alma possa erguer-se na presença dos Mestres, os seus pés devem ser lavados com o sangue do coração.” [5]

Duramente golpeado pela força surpreendente da sua própria ignorância, que só agora ele compreende melhor, o estudante persevera na ação correta independentemente das circunstâncias externas. Deste modo ele descobre e passa a viver em unidade crescente com a mais profunda substância do seu próprio ser interior – que não é “seu”, mas é universal. 

E a ignorância começa a dissolver-se lentamente no ar, destruída de um lado pelo fogo da provação, e de outro pelo bom carma da ação adequada.

NOTAS:

[1] “Aforismos de Ioga, de Patañjali”, William Q. Judge, edição online disponível em nossos websites associados, Livro I, Aforismo 7.

[2] “The Key to Theosophy”, Theosophy Co., Los Angeles, ver p. 299.

[3] “Luz no Caminho”, de M. C., Tradução, Prólogo e Notas de Carlos Cardoso Aveline, The Aquarian Theosophist, Portugal, 2014, 85 pp., ver p. 20.

[4] O artigo “Chelas e Chelas Leigos” está disponível em nossos websites associados.

[5] “Luz no Caminho”, de M. C., The Aquarian Theosophist, 2014, ver p. 19.

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Uma versão inicial do texto acima foi publicada sem indicação de nome de autor na edição de maio de 2012 de “O Teosofista”. Em inglês, a versão inicial e anônima apareceu na edição de junho de 2012 da publicação “The Aquarian Theosophist”.

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Sobre o mistério do despertar individual para a sabedoria do universo, leia a edição luso-brasileira de “Luz no Caminho”, de M. C.

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Com tradução, prólogo e notas de Carlos Cardoso Aveline, a obra tem sete capítulos, 85 páginas, e foi publicada em 2014 por “The Aquarian Theosophist”.

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