A Verdadeira Concentração

O Tipo Correto de Concentração
Produz um Buddha ou um Cristo

John Garrigues

a-verdadeira-concentracao-com-mold-ok-_

00000000000000000000000000000000000000000000

Nota Editorial:

John Garrigues (1868-1944) foi um dos
grandes teosofistas do século 20. Trabalhando
anonimamente, ele deu um impulso decisivo à
preservação da teosofia original. Garrigues é o autor
de livros importantes e numerosos artigos publicados na
revista “Theosophy” entre 1912 e 1944. O texto a seguir
é traduzido da edição de novembro de 1926 de “Theosophy”
(pp.  31-32), onde foi publicado sem indicação do nome
do autor.  A análise do seu conteúdo e estilo indica que
o texto foi escrito por JG. Título original: “Concentration”.

(Carlos Cardoso Aveline)

0000000000000000000000000000000000000000000000000000000


Há alguns segredos de Hatha Ioga que  – uma vez redescobertos,  ou descobertos pela metade  -,   provocaram o surgimento de inúmeros cultos dedicados à conquista deste ou daquele  objetivo pessoal através da prática da “concentração”, ou “meditação”.

De fato, existe um poder imenso na arte da concentração. A natureza desse poder torna recomendável compreendê-lo, antes de começar práticas para o seu desenvolvimento. 

O tipo correto de concentração produz um Buddha ou um Cristo. O tipo errado de concentração – o único tipo conhecido da maior parte dos seus expositores ocidentais – produz um Kansa [1], um Judas, ou um médium.  

A concentração, como qualquer outra ação, implica a existência de um tema e de um objeto, e a existência daquele que age e daquilo sobre o que é exercida a ação.  Há muitos campos possíveis para a sua aplicação dentro da consciência humana, e nenhum deles é compreendido pelo Ocidente moderno.  Existe a concentração sobre um campo especial da natureza; e há a concentração sobre um objeto especial dentro daquele campo.

O princípio do desejo, Kama, é a força motora da média dos seres humanos, e necessariamente absorve noventa e nove por cento do poder de atenção do indivíduo. Para a maior parte das pessoas, o resultado disso é uma oscilação sem rumo certo, com uma troca contínua de um objeto dos sentidos por outro.  O homem não escolhe um objetivo específico no qual concentrará a ambição da sua vida. Deste modo, a  vida é fragmentada e desperdiçada em uma busca interminável de gratificações, e não há um efeito permanente sobre o caráter da pessoa, exceto pela tendência de repetir a experiência nas vidas futuras.

Alguns poucos buscam a realização de uma meta definida.  Quando a vontade é suficientemente forte para que haja concentração em torno da meta, a ambição é realizada. Estes são os casos dos nossos modernos Morgan, Rockefeller, etc.[2]  Os resultados deste poder de concentração também incluem grandes artistas e gênios em áreas específicas de conhecimento. São poderes produzidos por uma concentração unilateral, mantida durante mais de uma encarnação. E isso, também, só produz uma maior cristalização da mesma tendência, com a contínua repetição de uma estrutura destinada a desmoronar ao final de cada encarnação.

Em tais casos de êxito material, o poder da concentração é conhecido. Mas não se conhece a diferença decisiva entre o que é a alma e o que não é a alma – entre aquilo que é eterno e o que é passageiro.

Conta-se que, no caso de Gautama, para que a sua alma chegasse à condição de Buddha, a vontade de obter a libertação espiritual teve que ser mantida sem interrupções durante incontáveis encarnações. 

Nem todos, entre nós, poderão tornar-se Buddhas neste Manvântara [3]; mas quem já conhece alguma coisa da realidade espiritual compreende que mesmo o ganho material mais vasto não tem qualquer valor, se comparado ainda que seja com uma pequena quantidade de crescimento permanente. A construção da permanência não surge da concentração na busca de ganhos materiais. Ela vem da concentração na prática de ações materiais que possibilitam alcançar metas espirituais.

A verdadeira concentração tem uma natureza dual: de um lado, a concentração fixa da vontade na realização eficiente do que quer que esteja ao alcance e deva ser feito; e de outro, uma percepção igualmente constante do verdadeiro motivo pelo qual a ação deve ser realizada: o benefício de todos os seres.  Assim o indivíduo se torna uma força impessoal da natureza e não tem motivo para agir para si mesmo.

Durante a vida nesta terra, sentimos que estamos aparentemente presos e acorrentados. Isso se deve a uma visão errada do objetivo da vida e Daquilo que vive durante esta vida.  Para preservar nossa existência, temos que praticar ações. Como a vida material se movimenta sempre entre os grandes pares de opostos, ninguém consegue libertar-se totalmente de ações tediosas e desagradáveis. Portanto, é em vão que nos esforçamos para escapar dos deveres necessários e para seguir a ilusão do desejo. Quando os esforços se frustram, eles resultam em feridas profundamente sensíveis, devido aos ferros das correntes.  Quando os esforços têm êxito, eles apenas demonstram o fato de que nós trocamos as velhas correntes por outras, novas.

Todo ser que cumpre seu dever – não para beneficiar a si mesmo, mas porque tal é o seu dever –  alcança uma condição de alma em que há indiferença quanto à natureza da ação, uma vez que a ação promova o bem comum. Ao fazer isso, o indivíduo descobre que a ilusão segundo a qual “a felicidade depende de sensações” não passa de um sonho. A verdadeira felicidade surge espontaneamente de dentro; e isso ocorre sempre que o Ser se liberta de desejos voltados para objetos externos.

A concentração física e mental sobre a realização correta de ações é necessária para que a roda da vida possa girar suavemente, e para que os destinos das criaturas não sejam lançados em confusão.  A meditação espiritual deve ser dirigida a Ishwara, o Eu Interior, “que não pode ser perturbado por problemas, trabalho, frutos de trabalho, ou desejos”.   Este é o caminho que leva à libertação das dores e dos castigos do egoísmo -; à libertação do cárcere da limitação humana, e de todo Carma. [4]

A concentração, portanto, pode ser vista como universal; como aquilo que mantém a manifestação ao longo do período de um ciclo ou período de evolução do universo.

Ela também pode ser vista como Hierárquica [5], dentro do ciclo maior; como aquilo que mantém qualquer estado determinado de consciência e ação.

E pode ser vista como individual ou pessoal; como aquilo que mantém a identidade do ser, seja numa determinada forma, num determinado estado, uma determinada Hierarquia, ou ao longo de todo o vasto ciclo do Manvântara. Esta última é a concentração espiritual, cujo cultivo é o real Objetivo de todas as existências finitas.  Ela é exemplificada pelos Mestres de Sabedoria.

Qualquer outra forma de concentração é perecível porque não passa de um instrumento para alcançar um fim igualmente finito e mortal.

NOTAS:

[1] Kansa.  Na narrativa clássica do “Mahabharata” hindu, Kansa, um tio de Arjuna, era um traidor. Arjuna é o personagem central do “Bhagavad Gita”, que faz parte do Mahabharata. (CCA)

[2] Morgan, Rockefeller.  Dois famosos milionários dos Estados Unidos durante o século 20. (CCA)

[3] Manvântara. O longo período de manifestação objetiva do Universo, que se alterna com o Pralaya, o período de não-manifestação. (CCA)

[4] … libertação … de todo carma”. Garrigues se refere aqui à libertação de todo carma inferior. Carma significa Ação, e o universo inteiro está em ação e movimento de acordo com a lei do carma. As inteligências mais elevadas e espirituais humildemente expressam a lei do carma e da justiça. Até mesmo as durações dos manvântaras e os intervalos entre eles são regulados pela lei do equilíbrio e da harmonia. O Buddha e demais inteligências planetárias e universais estão todos a serviço da Lei do Carma, assim como os mestres de sabedoria oriental que inspiram o movimento teosófico. (CCA)

[5] Hierárquica.  Alusão às hierarquias de inteligências divinas. (CCA)

000

Sobre o mistério do despertar individual para a sabedoria do universo, leia a edição luso-brasileira de “Luz no Caminho”, de M. C.

luz

Com tradução, prólogo e notas de Carlos Cardoso Aveline, a obra tem sete capítulos, 85 páginas, e foi publicada em 2014 por “The Aquarian Theosophist”.

000

Esta entrada foi publicada em John Garrigues. Adicione o link permanente aos seus favoritos.