The Aquarian Theosophist, June 2017

 

This is the opening thought of June 2017 edition:       

There is a sharp difference between peace and stagnation.

On page one, the article “The Choices that Elevate the Soul” says: 

As soon as a pilgrim decides to tread the path to wisdom, several additional decisions must be made that he cannot postpone.

On page three we have “The State of Mind and External Conditions”. Page four presents “Taking a Rest from Outward Perception” and “Beyond Wishful Thinking”.

The Writings of an Eastern Master – 02”, on pages 5-7, brings us excerpts from a letter of Blavatsky’s teacher. The article “Storks, Babies and the Phoenix” examines an ancient legend, on p. 8.

These are other topics in the June 2017 edition:

* The breathing of the forests and our breathing; 

* Orwell and the power of caring for the others;

* Theosophy in the Epistle of James;

* The Art of Studying Blavatsky;

* Thoughts Along the Road: there can be no firmness in one’s steps, in the absence of self-discipline;

* Ernest Pelletier writes to the editors: Adyar makes progress; and

* The invisibility of essential factors.

The 18-pp. edition includes the List of New Texts in our associated websites.  

 

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“The Aquarian”, June 2017

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You can find the entire collection of “The Aquarian” at our associated websites.

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E-Theosophy e-group offers a regular study of the classic, intercultural theosophy taught by Helena P. Blavatsky (photo).

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O Uso das Nossas Energias

Uma Chave Para o Mistério do Carma Humano

Carlos Cardoso Aveline


A natureza tem grande quantidade de papagaios falantes

 

Há uma chave para o mistério do Carma humano, e ela constitui um desafio oculto colocado diante do movimento teosófico e de cada um dos seus membros.

Para construir uma relação mais saudável entre a nossa civilização e o seu futuro, o indivíduo deve, primeiro, descobrir a melhor forma de usar diariamente as suas próprias energias.

Isso inclui as várias dimensões da vida, desde o plano físico ao espiritual, e ocorre no mundo individual tanto como na esfera coletiva. 

A arte de usar as nossas próprias energias está ligada ao terceiro objetivo do movimento teosófico moderno, ou seja, “a investigação das leis inexplicadas da Natureza e dos poderes psíquicos latentes no homem”.

Esta arte é também inseparável dos outros dois objetivos do movimento.

Precisamos vivenciar  algo do primeiro deles (a busca da fraternidade universal) e progredir quanto ao segundo objetivo (a busca do conhecimento universal) para fazer algum progresso real em relação ao terceiro objetivo, desenvolvendo o nosso poder de pensar, agir, sentir e compreender de forma correta.

O oposto também é válido. Cabe desenvolver o poder latente do pensamento correto e da compreensão correta, para alcançar o conhecimento eterno que nos leva à prática da fraternidade universal.

Os três objetivos estão estreitamente interligados.

Ajudar a humanidade é a melhor forma de ajudar a si mesmo, ao longo do caminho espiritual. A tarefa que se tem pela frente não é tanto cuidar dos obstáculos externos enfrentados pela humanidade, embora seja preciso manter um olhar vigilante sobre eles. A tarefa é sobretudo criar, reconstruir, preservar e expandir um núcleo global de pessoas que tenham essa visão mais ampla da vida.

A Prova De Que Sabemos Alguma Coisa

A ética pode ser definida como a intenção e a arte de plantar bom carma. Não há filosofia sem ética, porque o “amor à sabedoria” vai além das meras palavras. O real movimento teosófico não é nem um centímetro maior ou mais forte do que a sua ética. Ele depende de uma consciência impessoal e imparcial do que é justo.

O propósito ético de agir corretamente em relação a todos os seres é a única prova de que um estudante sabe de fato algo sobre teosofia em seu coração.

É inútil memorizar a literatura teosófica, na ausência de boa vontade. O indivíduo pode ser capaz de recitar de cor com total exatidão obras como “A Voz do Silêncio”, “Luz no Caminho” e “A Chave da Teosofia”, e tudo o que ele merecerá – se não tiver Ética – será uma medalha de ouro por suas habilidades como papagaio.   

A mesma ilusão que engana os papagaios teosóficos torna-os especialmente orgulhosos de seus talentos. Ninguém está acima de tal perigo. Cada indivíduo deve praticar sempre a auto-observação, para que não se transforme em um papagaio sem sequer perceber o fato.

O grau de vida interna que é possível encontrar hoje nas associações teosóficas depende da existência de uma Ética impessoal. Para a Loja Independente de Teosofistas, a relativa falta de vitalidade que se percebe em círculos esotéricos é resultado de limitações em Ética e Altruísmo. Há também uma vitalidade maiávica, cuja intensidade dura pouco tempo, porque   produz sua própria destruição.

O movimento teosófico precisa de um tipo mais profundo de vida, que resulta de uma clara compreensão dos ensinamentos originais. Esta vitalidade “oculta” expressa um propósito de longo prazo e se expande hoje de forma lenta e silenciosa, à medida que mais pessoas despertam da velha atmosfera pseudoesotérica.  

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O texto acima foi publicado inicialmente em inglês em  nossos websites associados sob o título de “The Use of One’s Energies”.  A tradução ao português é de Joana Maria Pinho.

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O grupo SerAtento oferece um estudo regular da teosofia clássica e intercultural ensinada por Helena Blavatsky (foto). 

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Freud on Freedom From Delusion

Psychoanalysis Unmasks Blind Belief
And the Emotional Basis of Ignorance

Carlos Cardoso Aveline


 Freud (1856-1939) in his office

 

Sigmund Freud wrote about the wrong methods by which people try to avoid suffering and obtain happiness.

As soon as one’s dreams start getting destroyed by reality, there emerges a variety of possible ways to escape from the conscious perception of pain.

Spiritual delusions are one possibility. The intensive use of television and drug-addiction are two other choices. Political and religious ideologies also offer many self-delusional possibilities.

The common ground to all escapes from reality is that they postpone the unavoidable task of combining a process of self-knowledge and self-transformation with altruistic practices, and a feeling of unconditional respect for all beings. 

Speaking of one’s disillusionment with the world, Freud explains:   

“The hermit turns his back on this world; he will have nothing to do with it. But one can do more than that; one can try to re-create it, try to build up another instead, from which the most unbearable features are eliminated and replaced by others corresponding to one’s own wishes.”

The founder of Psychoanalysis proceeds:

“He who in his despair and defiance sets out on this path will not as a rule get very far; reality will be too strong for him. He becomes a madman and usually finds no one to help him in carrying through his delusion. It is said, however, that each one of us behaves in some respect like the paranoiac, substituting a wish-fulfilment for some aspect of the world which is unbearable to him, and carrying this delusion through into reality.”

What if people’s unrealistic dreams about reality are shared by others?

“When a large number of people make this attempt together and try to obtain assurance of happiness and protection from suffering by a delusional transformation of reality, it acquires special significance. The religions of humanity, too, must be classified as mass-delusions of this kind. Needless to say, no one who shares a delusion recognizes it as such.” [1]

Conventional religions usually ignore the presence of a common truth in the different mystical traditions, and deny the existence of a universal wisdom that transcends sectarian forms of religiosity.

Though using different words and concepts, both Psychoanalysis and the original teachings of modern Theosophy make an effective unmasking of the superficial and authoritarian character of most conventional creeds.

Russian philosopher Nicolas Berdyaev (1874-1948) helps in the same task.  

“Ethics has not paid sufficient attention to the monstrously big part played by falsehood in man’s moral and spiritual life”, he says. “What is meant here is not the falsehood which is regarded as an expression of wickedness, but falsehood which is morally sanctioned as good. People do not believe that the good may be preserved and established without the aid of falsehood.  The good is the end, the lies are the means. (…) The religious life of mankind, and perhaps of Christendom in particular, is permeated with falsity.”

And Berdyaev goes on:

“There is a kind of falsity which is considered a moral and religious duty, and those who reject it are said to be rebels. There exist social accumulations of falsity which have become part of the established order of things.  This is connected with the essential character of moral perception and judgment – with the absence of what I call first-hand moral acts.  Conventional, as it were, socially organized falsity clusters round all social groupings, such as the family, the class, the party, the church, the nation, the state. Such conventional falsity is a means of self-preservation for these institutions; truth might lead to their break up. The conventional falsity of socially organized groups (I include among them schools of thought and ideological tendencies) deprives man of the freedom of moral perception and moral judgment.”  [2]

The attitude is widely adopted in various degrees in politics and every aspect of social life.  In order to show the ridiculous violence implicit in the conventional idea of good manners, Freud quoted these ironical words by Heine:

“Mine is the most peaceable disposition. My wishes are a humble dwelling with a thatched roof, but a good bed, good food, milk and butter of the freshest, flowers at my windows, some fine tall trees before my door; and if the good God wants to make me completely happy, he will grant me the joy of seeing some six or seven of my enemies hanging from these trees. With my heart full of deep emotion I shall forgive them before they die all the wrong they did me in their lifetime – true, one must forgive one’s enemies, but not until they are brought to execution.” [3] 

When during the 19th century the influence of materialism expanded in our civilization, Marxism became popular as a philosophy. Left-wing thinkers dreamed that human beings don’t need to purify themselves, learn some wisdom and ethics or undergo an inner transformation. They thought it was enough to “change the world” and above all “change the others”, for “when everyone thinks like us, humanity will be happy at last”.

More than one church and sect tends to nurture similar thoughts.  

Well-intentioned social-liberals and left-wing citizens often think of themselves as true angels of peace. Their views have one or two fundamental points in common with classic Marxism, in that they see no need for human beings to improve themselves. The psychological diseases of selfishness, envy, hatred and aggression deserve no attention. Economic capitalism is the sole problem: all that people need in order to be eternally happy is a change in economy. 

Speaking of the left and its approach to the problem of hatred and violence, Freud says:

“The Communists believe they have found a way of delivering us from this evil. Man is whole-heartedly good and friendly to his neighbour, they say, but the system of private property has corrupted his nature. The possession of private property gives power to the individual and thence the temptation arises to ill-treat his neighbour; the man who is excluded from the possession of property is obliged to rebel in hostility against the oppressor. If private property were abolished, all valuables held in common and all allowed to share in the enjoyment of them, ill-will and enmity would disappear from among men. Since all needs would be satisfied, none would have any reason to regard another as an enemy; all would willingly undertake the work which is necessary.”

Every human being is therefore essentially an angel according to Marxism.

No need of self-reform: it is enough to eliminate the system of private property of means of production for humanity to attain the celestial heights. Western social-liberals of course reject communism. They sincerely rephrase the same idea in more modest ways, and say that all we need is better salaries everywhere.   

However, Freud continues:

“I have no concern with any economic criticisms of the communistic system; I cannot enquire into whether the abolition of private property is advantageous and expedient. But I am able to recognize that psychologically it is founded on an untenable illusion. By abolishing private property one deprives the human love of aggression of one of its instruments, a strong one undoubtedly, but assuredly not the strongest. It in no way alters the individual differences in power and influence which are turned by aggressiveness to its own use, nor does it change the nature of the instinct in any way. This instinct did not arise as the result of property; it reigned almost supreme in primitive times when possessions were still extremely scanty; it shows itself already in the nursery when possessions have hardly grown out of their original anal shape; it is at the bottom of all the relations of affection and love between human beings – possibly with the single exception of that of a mother to her male child. Suppose that personal rights to material goods are done away with, there still remain prerogatives in sexual relationships, which must arouse the strongest rancour and most violent enmity among men and women who are otherwise equal. Let us suppose this were also to be removed by instituting complete liberty in sexual life so that the family, the germ-cell of culture, ceased to exist; one could not, it is true, foresee the new paths on which cultural development might then proceed, but one thing one would be bound to expect and that is that the ineffaceable feature of human nature would follow wherever it led.” [4]

It is easy to see in our century that indulgence in personal habits and the destruction or fragility of family do not pave the way to heaven and to harmony in social relations.

Yet in self-indulgence and similar matters the political Left is far from being the sole responsible for human mistakes and social decay. Politically conservative thinking suffers from its own varieties of delusion. One of them is money-worship, a religion whose priests are bankers, and which has many a politician as its employee.  

A significant right-wing delusion is in the idea that poor people and millions of honest workers can be treated with disrespect, paid low salaries or kept in unemployment while the financial elite behaves in irresponsible ways. Self-indulgence in financial crimes, big and small, and deliberate falsehood in political life are familiar to both “liberals” and “conservatives” around the world.

Of course millions of decent citizens support a variety of political parties around the world, and religious organizations of all kinds.  

Still the way to heaven is not in joining narrow-minded religious sects, or attempting to make the reform of the world through conventional politics, war, or social movements.

The path to celestial heights is within.

The temple is invisible. It exists in one’s soul. Living in harmony with the sky begins with understanding the neurotic mechanisms of mutual hatred and ignorance.

It is worse than useless to project onto others the responsibility for our own psychic suffering, or the duty of making us happy. A firm sense of self-reliance and the decision to keep free from the habit of blaming others are two helpful factors along the way to heaven.

Freud says that “it is always possible to unite considerable numbers of men in love towards one another, so long as there are still some [men] remaining as objects for aggressive manifestations”. 

In other words, humans are fond of using other humans as scapegoats, and such negative feelings are often mutual. In the Middle East and around the world, however, this sort of neurotic competition does not have to take place through murder, war or terror.

Once anti-Semitism, anti-Zionism, Islamic terror and similar hatred-based ideologies are defeated, hopefully once and for all, there are more convenient forms of satisfaction for human aggressive tendencies.

Sports is but one of them.  

Freud once interested himself “in the peculiar fact that peoples whose territories are adjacent, and are otherwise closely related, are always at feud with and ridiculing each other, as for instance, the Spaniards and the Portuguese, the North and South Germans, the English and the Scotch, and so on.” [5]

The Psychoanalyst then added that this is a comparatively harmless way to deal with the problem of collective aggressiveness.

Freud was right, and perhaps he was prophetic. In a future that one probably ought to keep unspecified, moderate jokes and respectful ridicule hopefully will turn out to be the densest forms of conflict among human individuals and social groups.  Laughing at our own mistakes is also a healthy thing to do, and perhaps more useful than laughing at our neighbours.

NOTES:

[1] “Civilization and Its Discontents”, by Sigmund Freud, part II. See “The Major Works of Sigmund Freud”, Great Books of the Western World, Encyclopaedia Britannica Inc., 884 pp., 1952, p. 774.

[2] “The Destiny of Man”, Nicolas Berdyaev, Harper Torchbooks, Harper & Brothers, New York, 1960, 310 pp., see pp. 160-161. The book is available in our associated websites.

[3] “Civilization and Its Discontents”, by Sigmund Freud, part III. See “The Major Works of Sigmund Freud”, Great Books of the Western World, p. 786.

[4] “Civilization and Its Discontents”, by Sigmund Freud, part III. See “The Major Works of Sigmund Freud”, Great Books of the Western World, pp. 787-788.

[5] “Civilization and Its Discontents”, by Sigmund Freud, part III.  See “The Major Works of Sigmund Freud”, p. 788.

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The above text was first published on 10 April 2017 in our blog at “The Times of Israel”.

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Read also in our associated websites the article “A Psychoanalysis of Religions”.

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In September 2016, after a careful analysis of the state of the esoteric movement worldwide, a group of students decided to form the Independent Lodge of Theosophists. Two of the priorities adopted by the ILT are taking lessons from History and building a better future.   

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Vitória Régia

O Lótus é uma Flor Sagrada Para os Povos
Antigos, e Vitória Régia é Seu Nome no Brasil

Oswaldo Silva


 

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Nota Editorial de 2017

O artigo a seguir é reproduzido de “O
Teosofista
”, edição de março-abril de 1934,
pp. 72 a 74. A ortografia está atualizada,
e foram verificados os nomes científicos.

Oswaldo Silva foi um dos teosofistas mais
ativos no Brasil durante as décadas de 1920 e 1930.

(Carlos Cardoso Aveline)

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Cada reino da Evolução oferece um mistério imenso diante do qual a mente do filósofo ou a alma do artista permanecem: uma, estática, confundida pela sabedoria inconcebível e a outra, inebriada pela beleza do drama nele contido.

O que caracteriza a obra divina é a distribuição desta sabedoria e desta beleza, sem distinção nem preferência: qualquer material para ela, a Natureza, é o bastante para engendrar uma obra-prima. Um raio de sol e a pétala de uma flor, mesmo sobre a lama de um pântano, são motivo de um quadro que imortalizaria um artista, se ele tivesse tintas… e talento para executar sua fiel reprodução.

Quem pudera sondar o mistério da evolução da mônada mineral, a evolução daquela alma silenciosa dos rochedos que, durante uma ronda catenária ergue lá, muito ao longe, o seu perfil de Titã?

Que drama concebe o homem que possa imitar a majestade de um mar proceloso, a rugir no escuro, como se fossem manadas de leões famintos?

A Natureza é profundamente dramática, mas também é, incomparavelmente, misteriosa e… soberanamente artista, infinitamente… Creio que não há reino da nossa evolução em que ela se mostre mais pródiga do que seja o do vegetal… com efeito: quanto à abundância, nele não há limites; por toda parte surgem as mais estranhas formas, quer seja nos vastos campos ou nas florestas umbrosas, tudo é coberto por esse lençol verde, sem fim.

E tudo serve para dar vida a esses entes silenciosos: a areia dos desertos, a fenda dos rochedos, a terra úmida e encharcada dos paus; eles vivem no ar, na terra, na água, na neve, nos fermentos. E as plantas trazem em si o aspecto do lugar em que vivem: aquelas que conseguem dominar a secura dos desertos são ásperas, incolores, secas e rugosas; as que vivem na humidade dos lugares sem sol, são geladas, carnudas e gotejantes; no fundo dos mares, nas trevas abismais, onde reina o silêncio e a morte, as plantas são raras, são pegajosas, álgidas e aglutinantes…

Algumas, são da cor do lodo e parecem serpentes aprisionadas pelas cabeças, agitando-se ao sabor das correntes profundas.

Ao contrário, nas águas límpidas e relativamente próximas da superfície, vivificadas pelo sol tropical, entre anêmonas rutilantes e madréporas esmaltadas [1], há plantas que sugerem um país de sonho…

Vivem nos lagos da Ásia, da África e da América e mesmo em alguns da Europa, certas variedades de plantas pertencentes às famílias das Ninfeáceas e das Nelumbiáceas, muito interessantes.

Nesta última família estão agrupados os gêneros lótus: (Nelumbium speciosum,  Nymphoea lótus, Nymphoea coerulea), muito conhecidos, através da história profana, religiosa e simbólica. O lótus é flor sagrada na Índia, no Japão, e na China, como o foi no velho Egito. Sobretudo, na Índia, o seu papel como elemento decorativo, como símbolo religioso, é preponderante.

Poderíamos nos estender longamente a propósito desta flor; queremos, porém, antes algo dizer sobre um gênero pertencente à primeira família, a das Ninfeáceas, que vegeta nos lagos do norte do Brasil, gênero da tribo das Euríales: a Vitória Régia.

Tão bela quanto o lótus, esta flor teria, talvez, igualmente servido de grande símbolo a um povo antigo. Distingue-se das Nelumbiáceas, ou dos lótus propriamente ditos, pela particularidade de que suas folhas, que são extensas, de um a dois metros de diâmetro, têm bordos erguidos, assemelhando-se a uma bandeja descomunal. Vi muitas vezes, nos majestosos lagos amazonenses, na tranquilidade misteriosa daquelas águas paradas, aves aquáticas de longas pernas, imóveis, sobre as folhas da Vitória Régia, como a meditarem em um poema estranho… [2]

Sem dúvida, este maravilhoso euríale é digno do ambiente majestoso que o cerca e não é possível ao estudante das evoluções ocultas contemplá-lo sem evocar de pronto as cenas feéricas que, na penumbra da luz lunar, têm por palco a superfície espalmada das suas folhas gigantescas.

Mais de uma lenda de sabor nativo surge no “folk lore”, da história da Vitória Régia…

Certa vez, Yuarauá (peixe-boi) apaixonou-se por Koema (Manhã), que se banhava no lago ao nascer do sol. A índia desmaiou de susto ao ver o feio rosto do apaixonado, e este conduziu-a para sua morada, que era um recanto do lago, coberto de plantas aquáticas, onde a água era muito fria, lodosa e tranquila. Arakuema (dia bonito), seu noivo, procurou-a inutilmente e, por fim, morreu de tristeza; porém a sua alma, transformada em maçarico, corre sobre as folhas das Vitórias Régias em busca de Koema… que Yuarauá escondeu entre as folhas do gigantesco Lótus brasileiro.

NOTAS:

[1] Madrépora: um tipo branco de coral. Trata-se de um animal, como são todos os corais. (CCA)

[2] A vitória régia pode suportar até cerca de 40 quilos se eles forem bem distribuídos. Seu diâmetro chega em alguns casos a dois metros e meio. (CCA)

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Em setembro de 2016, depois de uma análise da situação do movimento esotérico internacional, um grupo de estudantes decidiu formar a Loja Independente de Teosofistas. Duas das prioridades da LIT são tirar lições práticas do passado e construir um futuro saudável

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Reunião Reservada Com o Dalai Lama

Em Encontro Fechado,  em 2006,
Líder Tibetano Enfrenta a Linhagem
Ningma e Denuncia o Pseudobudismo

Equipe Bodigaya


O XIV Dalai Lama fez um esforço para
colocar um limite na falta de autenticidade  

 

Nota Editorial:

O texto a seguir é um informe sobre a reunião reservada do XIV Dalai Lama com representantes da comunidade budista brasileira, realizada em abril de 2006, em São Paulo. 

A narrativa transmite uma lição fundamental de compromisso com a ética. Foi publicada inicialmente ainda em 2006, na edição número 19 da revista budista independente “Bodigaya”, de Porto Alegre, sob o título “O Hábito Não Faz o Monge”.

Na Carta ao leitor, os editores de Bodigaya escrevem:

“…..Ninguém imaginaria ver Sua Santidade, investida de natural e legítima autoridade, protagonizar a maior repreensão ao comportamento inadequado de líderes budistas jamais vista! Num ato firme e resoluto, com um único precedente ‘bíblico’ (Jesus e os ‘vendilhões do templo’), S.S. o Dalai Lama provou, aos olhos dos presentes, ser exatamente quem é, um líder extraordinário, plenamente atento e consciente do seu papel. Seu discurso impiedoso e ‘cirúrgico’ foi como um médico tentando cortar a carne para drenar o pus instalado. Diante do gesto inusitado, mas compassivo, puro e genuíno, tudo o mais em sua visita, desta feita, ficou relegado a um plano secundário. Seu trabalho de purificação deste mundo inclui, claramente, até mesmo os ‘aspirantes a mestres’ budistas. Não podíamos deixar de levar ao conhecimento público um ato cuja importância é histórica, além de extremamente providencial e transcendente.” (p. 01)

Mesmo envolvido com artistas de Hollywood e campanhas promocionais no Ocidente que em nada ajudaram até hoje o povo tibetano, o décimo-quarto Dalai Lama mantém honestidade suficiente para ter um convívio difícil com os Ningma, internamente. É lamentável, no entanto, que ele  não esclareça a situação de público. Falta ética e autenticidade no budismo em todo o mundo. Onde quer que haja uma classe sacerdotal burocratizada, há problemas, e é melhor enfrentá-los de modo transparente.

Na abertura do informe sobre a reunião reservada com o Dalai Lama, a Equipe Bodigaya afirma:

“Diante da crise espiritual mundial, S.S. o Dalai Lama demonstrou liderança, clareza de visão, condenando comportamentos indecentes praticados por líderes budistas brasileiros. Por serem aspectos extremamente difíceis de serem identificados e enfrentados, precisamos todos aprender a reconhecê-los, a fim de aplicar os antídotos necessários à sua erradicação.” (p. 38)

O informe de “Bodigaya” narra um enfrentamento direto entre o Dalai Lama e membros da linhagem Ningma.

Desde o ponto de vista teosófico, é importante lembrar um fato básico. Helena Blavatsky escreveu sobre esta linhagem, que combina o budismo anterior à reforma ética de Tsong-Kha-pa com a feitiçaria local do Tibete antigo, e não leva em conta  preocupações éticas.  No seu texto “Reincarnations in Tibet” (“Reencarnações no Tibete”), publicado em 1882,  a Sra. Blavatsky esclarece:

“Os ‘Dug-pa’ ou ‘Gorros Vermelhos’ pertencem à velha seita Ningma-pa, que se resistiu a aceitar a reforma introduzida por Tsong-Kha-pa na parte final do século catorze e início do século quinze.”

E, numa nota de pé de página, ela acrescenta:

“O termo ‘Dug-pa’ no Tibete é pejorativo. Eles próprios pronunciam a palavra como ‘Dög-pa’, cuja raiz significa ‘unir’ (aqueles que estão unidos à fé antiga); enquanto que a seita suprema do Tibete, os Gelug-pas (gorros amarelos), e o povo, usam a palavra no sentido de ‘Dug-pa’, causadores de confusão,  feiticeiros.” [1]

Mesmo os monges Gelup-pa não se notabilizam pelo saber nem pelo discernimento, e H. P. Blavatsky escreveu que alguns Mestres de Sabedoria “permanecem desconhecidos em seu verdadeiro caráter até mesmo para os lamas – que são na maior parte dos casos tolos e ignorantes.” [2]  A situação é mais grave no caso dos feiticeiros que se fazem passar por monges.

As palavras de Blavatsky citadas acima foram escritas no século 19. 

No século 21, o testemunho de budistas independentes ligados à revista “Bodigaya” mostra em primeira mão um episódio recente de um enfrentamento de 700 anos. 

Local, São Paulo. Data, 2006. De um lado, o budismo reformado dos Dalai Lamas, que pertencem à linhagem dos Gelug-pa. De outro lado os dug-pas, ou Ningma-pa, da linhagem “vermelha” anterior à reforma do budismo tibetano. 

(CCA)

NOTAS:

[1] “Collected Writings”, H.P. Blavatsky”, TPH, coletânea em 15 volumes; ver volume IV, pp. 9-10, artigo “Reincarnations in Tibet”.

[2] “Helena Blavatsky”, Sylvia Cranston, Ed. Teosófica, Brasília, 1997, 678 pp., p. 107.

 

Reunião Reservada Com o Dalai Lama

Equipe Bodigaya

Vamos tentar apresentar os pontos que nos pareceram mais representativos do encontro reservado junto ao hotel onde Sua Santidade foi hospedada, em São Paulo.

Tenha o leitor em mente que esta foi a terceira visita oficial do Dalai Lama ao Brasil. Desde 1992, ele acompanhou o gradual desenvolvimento de centros budistas, comunidades de praticantes (sanghas) e a transmissão dos ensinamentos, nestes cerca de 15 anos.

Um outro ponto digno de nota, ocorrido nos dias anteriores à reunião secreta, foco deste artigo, foi o fato de, pela primeira vez, os budistas “leigos” terem tido acesso ao palco, junto aos membros “ordenados”. Dispostos numa certa hierarquia, lamas, mestres zen, mestres chan, entre outros, sentavam em primeiro plano, bem na frente da cadeira reservada para o Dalai Lama; depois vinham os leigos (chamados, também, de “professores do Darma”) seguidos pelos respectivos representantes oficiais das Entidades Anfitriãs, que auxiliaram durante toda a preparação e organização do evento, compondo o Comitê que tratou de todos os aspectos da visita. A identificação “exterior” era nítida, por conta das diferentes vestimentas coloridas, algumas chamativas, pois todos os centros, tibetanos, zen, chan, etc., estavam – especialmente na palestra de abertura, no Templo Zu Lai – devidamente paramentados. Ali, especialmente, Sua Santidade deparou-se com muitas roupagens distintas.

Nesta ocasião, muito sorridente, como sempre, ele dirigiu seu olhar para cada pessoa, sem deixar escapar ninguém. Havia lamas com mantos vermelhos, recobertos com “sobremantos” brancos, listados em bordô; as tradicionais roupas negras do zen, o manto amarelo dos chineses, etc., num colorido muito vivo pelo sol abrasador daquela magnífica quinta-feira.

O Dalai Lama brincou, riu e coçou muito a cabeça enquanto manifestava a energia e a força da sua presença. O discurso desta primeira apresentação cobriu desde uma rápida introdução ao budismo e seus elementos, até o exame superficial da vacuidade. S. S. foi extremamente hábil em sua colocação, dizendo que os tibetanos deviam todo respeito aos chineses, pois eles eram budistas há muito mais tempo que os tibetanos. Depois, com sua natural sabedoria, discorreu sobre a necessidade de se compreender que o “inimigo”, de fato, é um elemento necessário ao nosso crescimento e aperfeiçoamento. Asseverou que:

“…Nosso inimigo nunca está muito distante. É difícil que alguém do outro lado do globo possa ser um inimigo real, pois está longe demais… Em geral, nosso inimigo está bem perto, muito próximo mesmo (às vezes dentro da nossa própria casa, rua ou comunidade)… Na verdade, devido a essa proximidade, ele é alguém que compartilha conosco de um futuro comum. O nosso futuro, portanto, depende do futuro do nosso inimigo. Logo, precisamos aprender a respeitá-lo, a compreendê-lo, a dialogar franca e sinceramente com ele, pois somente assim poderemos construir um bom futuro comum. Se pudermos compreender profundamente essa nossa condição mútua, inseparável, além de respeitar e cuidar bem daquele que consideramos ser um inimigo, nós aprenderemos, quem sabe, a amar o nosso inimigo. Ou seja, na verdade, deixaríamos de ser inimigos, pois ganharíamos, na verdade, um novo amigo!” (risos e muitos aplausos)

Em um certo momento, observando as pessoas no palco, S. S. disse que os leigos, historicamente, foram menosprezados, tratados com desdém, ou até com um certo preconceito (velado) pelos ordenados, como se fossem algo inferiores. Corrigiu isso, dizendo que sem eles, os ordenados não subsistiriam, pois são sustentados pelos leigos. Demonstrou enorme consideração pelos leigos e afirmou, surpreendentemente, serem os leigos, talvez, o melhor veículo para transmissão do Darma, especialmente no Ocidente.

Na sexta-feira, S.S. palestrou no Centro de Convenções do Anhembi, repartindo a palavra com professores da Unifesp, especialmente do Departamento de Medicina, pois o tema proposto para a discussão era a Saúde. Novamente, S.S. encantou os presentes com respostas tão simples quanto sábias.

No sábado, pela manhã, houve a palestra pública no ginásio do parque Ibirapuera. Um público animado lotou completamente o recinto e o Dalai Lama estava particularmente inspirado. Ao entrar, foi aplaudido longamente. Ficamos nos perguntando em que outro país do mundo S. S. ouviria de um vasto grupo feminino os gritos: “Lindo! Lindo! Lindo!”

Curioso, perguntou o que diziam e, quando foi esclarecido pelo assessor, achou muita graça. Então, acomodou-se na poltrona, olhou em volta e queixou-se, simpaticamente, da iluminação, muito focada sobre ele, dizendo que não conseguia ver as pessoas ali presentes. Afirmou que sempre prefere olhar o rosto das pessoas com quem está conversando. Do jeito que estava escuro na plateia, ouvindo o rugido e burburinho do povo, jocosamente, afirmou: “é como falar com um tipo de fantasma gigante!” (muitos risos, aplausos). Provocou ainda mais risos, por singelamente retirar seus óculos comuns e pôr um par de lentes escuras, a fim de proteger-se da forte iluminação que recaía sobre si.

O tema desta apresentação foi sobre “O Poder da Compaixão”, o preferido de S.S. Talvez esta tenha sido a mais brilhante e tocante palestra do Dalai Lama em São Paulo, tratando-se de uma apresentação relativamente curta, voltada para um público abrangente. Suas colocações foram intensas, absolutamente claras, levando o público a uma experiência espiritual inesquecível. Garantiu que o maior bem é a “paz mental”, pois isso nos mantém saudáveis e felizes, mas, “para alcançá-la, o único caminho é o da Compaixão”. Pessoas emocionadas, com olhos marejados, aplaudiram de pé este ser humano absolutamente incomum. Mais do que suas palavras, elas viram alguém que corporifica a Compaixão. Às vezes, ouvimos alguém comentar: “como eu gostaria de ter ouvido Jesus ou Buda em pessoa, na época em que viveram…”.

Bem, todas as pessoas presentes naquele estádio, naquele dia, certamente, sentiram como se estivessem realizando um tal desejo. O Dalai Lama aqueceu e preencheu o coração dos ouvintes de um modo muito profundo. Foi um discurso repleto de um amor, humildade, sabedoria e otimismo, digno dos maiores seres humanos que já viveram sobre este planeta em todos os tempos.

Depois desta necessária introdução, para situar o leitor dentro do contexto mais geral do evento, voltemos aos acontecimentos ocorridos no Hotel, na “fatídica reunião secreta” com a sangha budista brasileira. Chegado o precioso e derradeiro momento do encontro – depois de alguma confusão provocada pelo número de pessoas ter se tornado, de uma hora para a outra, bem maior do que o de convidados -, o contingente humano foi dividido em seis grupos menores, com cerca de 30 indivíduos cada, praticamente de acordo com a procedência e linhagem de cada um. Todos os seis grupos foram posicionados contra a parede do corredor do segundo andar do Hotel, cada grupo com uma cadeira vazia, para que, depois de falar, S.S. pudesse sentar-se rapidamente para tirar uma foto de lembrança. O corredor é extremamente largo, talvez com cerca de seis metros de largura por uns cinquenta metros de profundidade. Sem cadeiras, todos aguardavam de pé. Nós, da equipe Bodigaya, ficamos no último grupo, dos leigos, bem ao fundo do corredor, portanto, tínhamos uma visão privilegiada de tudo o que pudesse acontecer naquela comprida e ampla passagem. Podia-se sentir a tensão e ansiedade eletrizando o ambiente enquanto todos aguardavam o seu maior líder e representante mundial. Finalmente, depois de averiguadas as condições e a segurança por “batedores”, que se espalharam e se postaram estrategicamente pelo local, Sua Santidade finalmente “apontou” na entrada principal do corredor…

Neste exato instante, um dos grupos, seguidor da linhagem Ningma, situado aproximadamente no meio do corredor, começou a entoar o mantra de longa vida ao Dalai Lama. Eles cantavam em voz alta e forte, enquanto S.S., sempre muito sorridente, foi entrando, passos firmes e decididos, corredor adentro, até ficar localizado mais ou menos ao centro, na verdade, um pouco mais para o fundo …  onde estancou, muito próximo de nossa equipe, e recostou-se no balcão comprido que havia ali, perto da parede oposta do corredor. Sorrindo, ouvindo o cântico entusiasmado que lamas e seus acompanhantes emitiam efusivamente, o Dalai Lama ergueu as duas mãos espalmadas à frente, fazendo movimento oscilante para que aquelas pessoas, situadas quase exatamente à sua frente, parassem…

Contudo, apesar do gesto feito pelo Dalai, o grupo, solene e respeitosamente recurvado, com pessoas paramentadas com mantos e sobremantos, munidas de malas (espécie de rosário) nas mãos em prece, palma com palma, não cessou com a cantoria; apenas abaixou o volume da fervorosa recitação. Novamente, S. S. ergueu as mãos, sacudindo-as para que parassem com aquilo. E, então, o volume do canto abaixou ainda mais, todavia, não cessou completamente…

Prezado leitor, o que aconteceu daqui por diante só poderia ser melhor absorvido e compreendido se você estivesse realmente lá, mas vamos tentar resumir, em alguns pontos, o que lá se sucedeu, senão vejamos:

1. Sua Santidade o Dalai Lama verdadeiramente soltou um grito, dizendo (num inglês absolutamente claro, mas aqui, obviamente, já traduzido por nós): “Calem-se!!!” E riu alto, magnânimo, em meio a um silêncio ensurdecedor que se seguiu, pois o grupo jamais esperaria uma atitude como aquela, vinda de quem vinha… Foi um “cala a boca!” contundente, e o silêncio instalou-se quase por um susto, um verdadeiro “choque” repentino da audiência. O grupo engoliu o mantra em seco, ficando com um sorriso “amarelo-histriônico” estampado no rosto. Com aquela introdução, de fato, muito constrangedora, mas verdadeira, o “tom da conversa” havia sido inequivocamente apresentado. Todos estavam ali, contra-a-parede, perfilados assim como num “pelotão de fuzilamento”… E quem estava ali, fazendo uso das palavras como uma arma eficaz e certeira, era exatamente ele, o Dalai Lama.

2. Iniciando por este imponente “Calem-se!!!”, Sua Santidade fez uma breve digressão. Disse que, no templo Zu Lai, viu um desfile de muitas vestimentas: “Havia roupas tibetanas, roupas chinesas, roupas japonesas, tailandesas, entre outras. Havia até roupas normais, de ocidentais… Porém, algumas roupas que havia lá, pareceram-me ser, na verdade, de outro planeta!” (muitos risos, risos amarelos, vermelhos, azuis, pretos…). “Penso que havia ali roupas até de ETs!” E riu muito alto, no que não conseguimos nos conter, apesar do constrangimento que sentíamos pelo que aquelas duras palavras significavam… Sua Santidade olhava nos olhos de cada um dos lamas e, quando se referiu a “roupas de ETs”, encarou uma pessoa específica. Imaginamos, imediatamente, que o Dalai Lama conheça praticamente todas as roupas monásticas existentes em cada templo do mundo inteiro e, talvez, tivesse percebido, nos trajes muito chamativos daquele indivíduo, algo ainda sem correspondência no universo de vestimentas de grupos reconhecidos fora do Brasil… A força de sua presença e coragem foi impressionante. Ninguém conseguia esboçar qualquer intervenção ou comentário. Na verdade, aquelas palavras eram mais um susto estupendo. O que viria a seguir? Muito mais do que se poderia imaginar…

3. O Dalai Lama mudou um pouco o tom irônico para um pronunciamento esmagador, uma lição absolutamente memorável: “Vocês são ocidentais e mudaram suas roupas. (referindo-se aos mantos, saias e sobremantos dos brasileiros ali presentes). Mudaram até a mobília da casa de vocês. Vocês acham que o Darma está nas roupas ou na mobília, nos adornos de suas casas? (Estão enganados)… O Darma não está nas roupas, mas no coração e na mente” … E riu alto novamente… A “atmosfera” do ambiente ficou absurda. Os lamas, bem na frente de Sua Santidade estavam paralisados, sem face, exibindo um “sorriso amarelo-aterrorizado”, indescritível. Davam a impressão de quererem ser teletransportados dali, mas não podiam simplesmente desaparecer, fugir, correr ou recuar, pois estavam presos no cordão de fuzilamento, sob os olhos atentos de um Dalai Lama ao mesmo tempo implacável e totalmente amoroso. Isso o que mais nos impressionava. Assistíamos à capacidade extrema de apontar e cravar a espada com precisão e veemência absoluta, mas sem intenção de causar dano. Não havia ódio no gesto hábil, quase leve, ainda que parecesse pesar toneladas pela dor que causava. O golpe excruciante tentava apenas eviscerar e fazer vazar o pus abjeto, encarcerado num abcesso maduro que apodreceria tudo o que ainda pudesse restar são… A impressão que tivemos foi de um Dalai Lama gigantesco, com mil metros de altura, e os líderes todos ali, bem na sua frente, como pigmeus, tentando entrar para dentro dos próprios sapatos a fim de se esconderem apavorados. Mas, como isso também não era possível, jaziam ali indefesos, a mercê de uma autoridade e poder superiores. Imagine o leitor que Sua Santidade, em pessoa, teve de lembrá-los disso! Dizer-lhes isso com cada letra e palavra. Está escrito no Dhammapada: “O hábito não faz o monge.” (Nem o canto de mantras!) Mas, quem, então, segue verdadeiramente o Darma? Só com esta atitude e clara intervenção, para quantos questionamentos nos remeteu Sua Santidade! Não ficou por aí, sigamos adiante:

4. Sua Santidade fez um breve comentário sobre ter-se alguma consideração pela cultura tibetana, mas que, “se há alguém que deve tentar preservar a cultura tibetana, são os tibetanos!” Se alguém deve preservar a cultura chinesa, são os chineses… e assim por diante… Querendo, talvez, no fundo, perguntar: e vocês, o que fazem com estas roupas de uma cultura exótica? Quem irá preservar a cultura de vocês? Deu a entender que mudar externamente, não transformava nada de fato e que eles jamais seriam tibetanos por usar roupas tibetanas.

5. Então, Sua Santidade deu o exemplo fortíssimo, discorrendo sobre o quão é difícil transformarmos a nós mesmos: afirmou que o Buda havia levado “três eons” (eras intermináveis) para iluminar-se. Reconhecido aos quatro anos de idade, levado ao contexto monástico, ele foi conduzido por muitos mestres, ao longo de muitas práticas, mas que ele mesmo praticava com maior consciência de sua condição desde os 16 anos, quando acredita ter entendido um pouco do significado de alguns ensinamentos e havia se tornado muito clara e nítida a sua condição de chefe de estado. “Estou agora com 70 anos…”, meditando cerca de nove horas diárias, desde essa idade, “e só consegui me transformar um tanto assim…” (mostrou os dedos polegar e indicador grudados um no outro). Ou seja, mesmo Sua Santidade, com todo o seu esforço, empenho, vida dedicada, como um monge que preza seus votos e práticas, havia conseguido avançar muito pouco. Esta afirmação, por si só, demonstra a envergadura da plena consciência e humildade dessa pessoa incomum.

6. Então, Sua Santidade desfere mais um golpe certeiro:  “Vocês fazem um retiro de três anos… e alguns fazem um workshop budista de um final de semana, e já se consideram transformados, espiritualmente elevados e até iluminados! Isso é loucura!” E ria alto, disparando seu olhar sobre todos. Desta feita, foi como prensar os ossos dos muitos orgulhos e vaidades presentes. Mas não parou tão logo, parecia saber que havia ossos ainda mais resistentes para serem moídos:

7. Sem retroceder um milímetro, indo em frente, Sua Santidade calou ainda mais fundo: “Vocês fazem rituais, retiros rituais de um mês, cantando mantras para Manjurshri, por exemplo, e pensam que já transformaram todas as suas negatividades. Então, depois disso, alguns já se autodenominam gurus!” E ria-se muito mesmo, como se quisesse assoprar a ferida recém-aberta… Assim que a dor parecia ter reduzido um pouco, que o grupo havia tomado um pouco de ar, Sua Santidade batia forte de novo:

8.“Vocês fariam muito melhor se, ao invés de ficar em repetindo rituais (vazios), ou permanecer por um mês cantando mantras, utilizassem esse mês estudando o Darma!” E ria assustadoramente. Na prática, suas palavras significavam diretamente: vocês não sabem nada e se arvoram de lamas, mestres, gurus iluminados e etc. Isso é uma grave loucura! Ninguém mais do que Sua Santidade tem consciência do quanto uma pseudo ou falsa liderança, ou pior, uma liderança despreparada, confusa, pode gerar em termos de negatividades. Mas não foi em tom de ameaça ou chantagem: foi lúcido, brilhante como o sol nascente fazendo desaparecer as trevas da madrugada com sua presença esclarecida. Estudar o Darma é trabalho interminável, de toda a vida, pois ele é vasto e profundo. Então, Sua Santidade escolheu atacar outro tema fundamental:

9. “Outro dia, nos EUA, uma pessoa se aproximou de mim e perguntou: ‘S. S. como eu posso me aproximar do budismo tibetano se, há algum tempo, fui com minha esposa a um centro onde um certo lama ensinava e ele foi tão sedutor que minha mulher abandonou minha família para ir viver com o lama?’ ” E S. S. perguntou: “Vocês acham que isso é ser lama? Ser lama é para obter favores sexuais, para alcançar reconhecimento,  fama? Para muitos, é apenas uma questão de ganhar dinheiro! Há empresários inescrupulosos se utilizando do Darma para, simplesmente, fazer dinheiro!”  E ria alto e mais alto…

10. Abrandando um pouco o tom, já que havia exposto a chaga a céu aberto, diante de uma audiência que parecia anestesiada de tantas observações contundentes, S.S. falou sobre o quanto é custoso mudar, transformar-se internamente. Mas, deixou claro: “Mudar externamente não significa nada. É perda de tempo.” Falou que “fingir” ser o que não se é não leva a lugar algum, pois nada é alcançado assim… A não ser os benefícios secundários de ser alvo de atenções, consideração, respeito e outros benefícios econômicos que não vêm ao caso mencionar, mas são evidentes.

Sua Santidade falou também sobre a arrogância, a soberba, a superioridade, dizendo que estes eram obstáculos sérios, impeditivos do prosseguimento no caminho. Então defendeu que, para o Ocidente, a perspectiva leiga e não-religiosa talvez fosse a melhor e mais adequada para a transmissão do budismo. Repetindo suas palavras já ditas no Templo Zu Lai, ao observar a presença de leigos sentados nas almofadas no palco, que os leigos sempre foram discriminados e que isto era totalmente injusto e sem sentido.

11. Depois de outros comentários, Sua Santidade definitivamente abrandou suas palavras, falando seriamente da atual condição do seu país, o Tibete, ainda nas mãos dos chineses. Concluiu ser melhor que Tibete fique mesmo com os chineses, pois estão modernizando o país, coisa que os tibetanos não poderiam proporcionar ao povo. Observou, porém, que isso deveria ser feito com garantias de direitos aos cidadãos, com respeito às diferentes etnias, direitos iguais preservados, constituição, democracia e etc.

12. Finalmente, agradeceu a todos que trabalharam e colaboraram com tudo. Muitos aplausos,  suspiros e Sua Santidade foi sentar-se, rapidamente, na cadeira de cada grupo, para as respectivas fotos.

Talvez não signifique absolutamente nada, mas, quando saímos por uma porta dos fundos, aberta por um funcionário enquanto os demais grupos tiravam fotos com o Dalai Lama, seguimos por ali, sem saber onde sairíamos e, para nossa surpresa, encontramo-nos novamente com S.S. já deixando o hotel. Ele sorriu para nós, despedimo-nos com acenos de mão e muita felicidade.

Em sua muito provável última visita ao Brasil, Sua Santidade nos fez ficar de espírito leve, solto, como se tudo estivesse em paz e em seu devido lugar.

Foi uma lição forte e inesquecível. Todos nós passaremos a respeitar profundamente os lamas e mestres que seguirem os conselhos expressos por Sua Santidade neste encontro tão histórico e memorável quanto enriquecedor.

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Em setembro de 2016, depois de uma análise da situação do movimento esotérico internacional, um grupo de estudantes decidiu formar a Loja Independente de Teosofistas. Duas das prioridades da LIT são tirar lições práticas do passado e construir um futuro saudável

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O grupo SerAtento oferece um estudo regular da teosofia clássica e intercultural ensinada por Helena Blavatsky (foto). 

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Publicado em Equipe Bodigaya | Comentários desativados em Reunião Reservada Com o Dalai Lama